“Agora é esperar”

O calvário de uma ida às urgências de um hospital, entrando com “suspeita de covid-19”

Por Patrícia Fonseca

A tortura da espera talvez seja o pior.

Primeiro ao telefone, com a linha Saúde 24, respondendo a perguntas automáticas

– Diga “Sim” ou “Não”… Sente falta de ar?

Depois respondendo a perguntas de um enfermeiro

– Tem febre? Falta de ar?

Depois passando para outro técnico de saúde

– Ora bem… tem tosse, falta de ar, e mais?

Depois à chegada às urgências do hospital

– Então mas a Saúde 24 enviou-a para cá porquê?

E na triagem

– Tem febre, dificuldade em respirar?

Depois na ala Covid, onde há que aguardar para fazer o teste

– Sente-se aí que já lhe vêm medir a febre

15 minutos depois, medem-me a tensão arterial.
20 minutos depois, a febre.
30 minutos passam, e pergunto:

– Desculpe, estamos à espera de quê?
– De um médico…

O médico não aparece. A enfermeira continua a escrever sem parar no computador.

45 minutos depois, enfia-me uma zaragatoa na garganta
(ah, ok, isto até nem custa muito)
e depois outra na narina
(ah, isso dói, dói, dói! Mas querem chegar onde, ao cérebro?!?)

– E agora?
– Agora é esperar.

Uma hora e um quarto depois, o médico chega.

– Então conte-me lá, o que se passa?
(Aaaa…her… que dizer…?)
– Bom, estou muito constipada há dois dias, com tosse e dificuldade em respirar…
E tem febre?

Depois ausculta-me. À frente, de lado, atrás, de lado outra vez. E chegam, finalmente, perguntas diferentes.
(embora não perceba bem o propósito de falarmos de questões urinárias, senti-me estupidamente feliz por não ter de repetir que não tinha febre)

O médico vai-se embora e não consigo decifrar se estava intrigado com o meu caso ou apenas atordoado com a falta de oxigénio dentro daquele fato de astronauta.

Uns minutos mais tarde, a enfermeira pergunta-me se sou diabética.

– Desculpe?
– Por causa do almoço, para si. É diabética?
– Não. Quer dizer, sou o que se considera pré-diabética, mas para o caso não interessa nada… normal, obrigada.

Ora bem… almoço para mim. Nada bom sinal. Olho para o relógio branco, pregado na parede branca da sala de isolamento (onde estou com outras duas pessoas, separados apenas por cortinas). Passaram duas horas desde que cheguei.

Quatro horas depois, uma auxiliar pergunta-me:

– Leite com café ou chá?
– Desculpe?
– Para o lanche… leite com café ou chá?
– Bom, eu estava à espera de almoço, há algumas horas…
– Aaaah, almoço já não há.
– Chá, pode ser. Chá está bem.

No saco de plástico que me entrega vem um pão, um triângulo de queijo fundido e um pacote de adoçante. Por fora, uma etiqueta com o meu nome e a informação: “Diabética, com sal.”

Bebo o chá.

Estou aqui fechada, confinada à minha cadeira, há quase cinco horas. Inocentemente, pergunto:

– Posso ir à casa de banho?
– Já lhe trago uma arrastadeira!

Eu, que até depois das cesarianas dos meus filhos consegui escapar a esse objeto abjecto, aqui estou, manietada por um vírus, obrigada a ceder.

A senhora da ponta oposta da sala diz que também precisa. O senhor do meio da sala, que chegou há menos de uma hora, diz que está muito bem, que comeu favas ao almoço. Não faz sentido, mas ninguém lhe diz nada.

O turno de enfermagem roda.

Aproveito para pedir informações sobre o que se segue. Dizem-me que o técnico de raio-X entra às 5 da tarde, e que é disso que agora estou à espera.

Tic-toc, tic-toc.

O velhote do meio da sala não perde pela demora e também fica a saber o que custa ter uma zaragatoa de 25 cm enfiada pela narina.

– Não faça força! Assim o cotonete não passa!, pede-lhe a enfermeira.

Bem o podem gritar, como a uma mulher em trabalho de parto… é difícil contrariar as ordens do corpo.

O homem contorce-se na cadeira e no final solta um contido “chiça…!” A enfermeira tenta acalmá-lo, e ganha ternura na voz:
– Já passou, pronto, pronto… Desculpe lá a maldade.

A mulher da ponta da sala aproveita para contar os pormenores do seu terrível sangramento nasal. Esteve mesmo para ficar ali estendidinha, ir desta para melhor, catrapumba. Eu não assisti a tamanha tragédia, só a vi pedir um lenço de papel extra, mas lá está, “todos podemos bem com as dores dos outros”.

Cinco e meia da tarde, chega o técnico de Raio X. Fica do lado de fora da porta, que cá dentro – vá de retro –, é terreno do bicho. Sou conduzida até à entrada do “espaço de isolamento” por uma nova auxiliar que claramente tem dificuldade em andar com tantas camadas de plástico e botins. Vou devagar, mas apenas porque tenho receio que ela acabe por se estatelar no chão.

Passam-me para as mãos uma placa de metal

Encaixe aí o queixo debaixo e segure assim com as mãos, junto à cintura.

E eu abraço a placa, pouso o peso do queixo em cima da superfície fria e espero.

– Não se mexa… já está.

A auxiliar regressa de pulverizador na mão, agarra na minha placa coberta de plásticos, desinfeta, enfia noutro plástico, desinfeta, passa para a porta de fora.

Eu regresso à minha cadeira e fico a ver a mesma cena repetir-se três vezes. Plásticos e placas num virote, suspeitos para um lado, enfermeiras para o outro, pulverizadores sempre em ação. E depois mais três vezes, mas com doentes acamados de outros dois quartos de isolamento, que eu só vislumbrava através dos vidros, e que vêm também ao átrio, junto à porta, para o Raio X. Vem a placa para a maca, as enfermeiras seguram os corpos quase inertes, de fatos anti-radiação por cima dos fatos anti-covid.

Tic-toc, tic-toc.

Tudo feito, tudo arrumado, o técnico vai-se embora com as placas e voltam a fechar-se as portas.

– E agora?
– Agora é esperar.

São seis da tarde e tenho fome, porque não almocei, só bebi um chá. Tento trocar mensagens com o meu irmão, mas a rede de telemóvel é quase inexistente nas catacumbas onde me encontro. Escrevo uma parvoíce

– Vem cá raptar-me

E a mensagem fica num limbo durante vários segundos, mas depois lá segue caminho.

A porta da rua entreabre-se, e a enfermeira fala com alguém que não consigo ver. Mas vira a olhar para mim e acena com a cabeça. Sim, posso ir embora? Ou sim, estou positiva? Sim? Sim, o quê?

– Patrícia…! Vai ter alta!

Dou um pulo na cadeira, estou a postos para sair naquele instante.

– Espere, espere, não é já, vamos só esperar o doutor.

Esperar. Claro que tenho de esperar. Vamos lá esperar.

Bendito doutor, desta vez veio depressa. Passa papeladas para a enfermeira, fala do corredor porque já não tem fato de astronauta, no meu telemóvel quase sem rede ouço o sinal de uma mensagem e não, não é o meu irmão a responder às minhas parvoíces, é uma receita médica.

– Tem uma laringite, vai tomar antibiótico 8 dias, ok?
– Ok. E o teste covid?
– Vai aguardar o resultado em casa, tem aqui nestes papéis a informação sobre o que deve fazer. Espere pelo menos 24 horas, se for positivo telefonam-lhe.
– Só telefonam se for positivo?
– Sim, são muitos testes, agora só ligam a quem der positivo.
– Mas podem só ligar amanhã, é isso?
– Sim, ou até 48 horas depois, mas é raro. Fique em casa, isole-se, quando chegar a casa tire a roupa toda e tome um banho, que também esteve aqui numa zona de possível contacto com o vírus…
– Ok… obrigada.

Outra auxiliar aguarda-me do lado de fora, para me conduzir pelos corredores até à saída do hospital.

– Adeus, as melhoras!, dizem-me, fechando novamente a porta, numa nuvem de borrifadelas desinfetantes.

Vou seguindo os passos de quem me conduz à liberdade, com a sensação de estar a fazer alguma coisa de errado. Chegamos à porta das urgências e ali fico, a sentir o vento na cara. A mulher sorri e despede-se. Sigo para o meu carro, tento ler as indicações multiplicadas em várias folhas de papel. Procuro um cigarro na mala. Sei que não devo, sei que me vai saber mal. Mas acendo-o.

Devo isolar-me até saber o resultado do teste covid. Mas posso não chegar a sabê-lo, porque se for negativo ninguém me vai telefonar. Se quiser mesmo saber, daqui a uns dias posso enviar um email. Enquanto ninguém me telefona, e esperando que ninguém telefone, o melhor é estar sozinha. Se não for possível, devo usar sempre máscara e estar a pelo menos 1 metro de distância das outras pessoas. E ter uma casa de banho só para mim. Se não for possível, usar muita lixívia, e lavar as mãos. Todos têm de lavar muitas vezes as mãos.

Esperar 24 horas. Mas o melhor é esperar 48 horas. Ah, espera, no rodapé diz ainda que devo manter-me isolada até ficar completamente recuperada dos sintomas que me levaram a fazer o teste.

Então devo ficar fechada durante a semana toda, enquanto tomo antibiótico para uma laringite?

Desisto. Rodo a chave do carro, olho para o espelho retrovisor e percebo que tenho sangue no nariz. Maldita zaragatoa. Ligo para um amigo farmacêutico – abençoados amigos –, explico a situação e pergunto se posso passar na farmácia, se me entregam os medicamentos à porta. Ele está de férias mas pede-me que lhe reencaminhe a mensagem com a receita e, 5 minutos depois, já tenho um pacote à minha espera. Pagamento com MBWay e é só seguir caminho.

Tenho filhos pequenos à minha espera, numa casa também ela pequena, com uma única casa de banho. Não sei se há lixívia. Não posso ir ao supermercado. Vou lavar as mãos, como sempre. Mas primeiro um banho. Meto as roupas todas num saco, para irem para a máquina. Lavo as sandálias, limpo o telemóvel, a mala, e os óculos, já agora.

Tenho vontade de limpar o mundo com bolinhas de algodão impregnadas em álcool mas contenho-me. Sento-me e fico a ouvir o meu estômago a suplicar por comida, com o telemóvel pousado em cima da mesa da cozinha. Já verifiquei três vezes que tem o som no máximo, e que não perdi nenhuma chamada.

Cai a noite, tomo a medicação para a laringite, tento afastar os fantasmas que me roubam o sono. Não posso fazer mais nada. Agora é esperar.

——

*No dia seguinte não recebi nenhum telefonema das autoridades de saúde e na zona do país onde me encontrava não foram registados casos positivos nas 48 horas que me poderiam abranger. De qualquer forma, enviei um email a solicitar o resultado do meu teste covid. Sei que aquele “negativo” não me iliba de nada e que se amanhã – vade retro – voltar a ter um cotonete a perfurar-me a narina até ao infinito e mais além, o resultado poderá ser diferente.

Três dias depois ligaram-me, do centro de saúde da minha residência:

– “Temos indicação de que fez um teste, e que foi negativo, queremos saber como se sente. Não tem febre, pois não?”

Não consigo parar de pensar no que mais haverá a fazer, além do tanto que vamos fazendo – todos nós, cidadãos, todos os dias, apesar das dificuldades financeiras e emocionais que estamos a enfrentar. Aplanámos a curva, ganhámos tempo, equipámos hospitais, mas vem aí o Inverno e, se os protocolos não mudarem, o sistema de saúde irá colapsar rapidamente. Tosse, febre, dificuldades respiratórias… Não é possível processar 50 casos como o meu diariamente num hospital do Interior – quanto mais 500 – e numa tarde de verão vi uma unidade perto do limite com meia dúzia de casos suspeitos.

Fazer assim mas, se não for possível, fazer assado, não é uma regra. Aguardar por uma vacina não é uma estratégia. “Esperar pelo melhor” não é – não pode ser – um plano.

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